Quarta foi dia das novidades. Saímos de São Paulo rumo a Itu. Conhecemos o Coletivo Roda Torta. Eles estão conhecendo a rede agora. Pouca experiência com o Circuito, mas muita vontade de fazer. Várias bandas que se uniram para fazer acontecer. Depois de conhecermos alguns integrantes e a geléia de morando da mãe do Allan, seguimos para uma Biblioteca Comunitária que existe na cidade.
O friozinho tomava conta da cidade, nenhum clima mostrou-se mais agradável que aquele para juntar uma galera e ver um filme. Já me surpreendeu entrar na Biblioteca: uma sala cheia de livros, uma banquinha lotada de revistas, as mais diversas e que o interior gosta de falar que só tem na capital. A biblioteca comunitária concentrava ali diversas fontes de conhecimento. E é muito frequentada, bastante gente circulando.
O cineclube 'Brad Will' já está consolidado. (Aliás, quem ainda não viu o doc sobre ele, dá uma procurada na internet, merece ser visto) A parceria entre o recém Roda Torta e a Biblioteca propõem que Itu é forte na Literatura, no Cinema e tem cabeças impressionantes ali. Foi o primeiro debate em que se propôs uma roda de conversa. Empurramos as cadeiras para trás de maneira que podíamos olhar para todos que estavam falando. E todos falaram. O tema? Liberdade. O filme atingiu os olhares políticos, as lutas sociais, os questionamentos individuais, conflitos existencialistas e reflexões sobre a força do capital gerindo o social. E a qual conclusão chegamos? Basicamente que é preciso coletivizar.
Liberdade e coletivo. Não seremos livres se formos individualistas. É isso que ficou, e gerou mais conversa ainda. A pizza artesanal pós-debate estimulou mais mentes a se abrirem. Estamos abertos, queremos ouvir e queremos falar, é esse o recado que deixaram.
A extensão da turnê não parou na cidade do grande orelhão. Voltamos a São Paulo no dia seguinte. Terminamos a turnê passando o filme dentro do antigo Carandiru. Hoje, o espaço é contemplado por uma ETEC: Parque da Juventude. No prédio das Artes, uma mistura de música, fotografias, e cores em meio a um prédio que, inevitavelmente, trazia lembranças a qualquer um que já ouviu falar do massacre dos 111 presos dali. Dentro do prédio, um olhar para cima que mantem a visão dos presidiários, mas que hoje traz outros símbolos, uma visão mais positiva do espaço, que traz a possibilidade de mudança de vida e não de que ela parou. Nada mais justo que um debate naquele lugar sobre o que é ser livre e o que é fazer arte.
Fechamos ali, dentro dos muros do que um dia foi uma prisão, que colocava vários Abels contra os muros (não debato aqui justiça ou injustiça) e que o tema liberdade palpitava nas mentes dos que por diversos motivos, não tinham a permissão de serem livres. E é preciso permissão? Sejamos livres, em nossos espaços e nos espaços seus, não nos individualizemos, isso nos bloqueia. Busquemos coletivizar opiniões e ações.
E depois de 7 horas de viagem, saindo de São Paulo, passando por São Carlos, Bauru piscava pelas placas que diminuíam os dígitos da quilometragem distante. Foi ficando perto e mais perto. Por fim, chegamos.
O que fica pra mim é que a Turnê serviu para estimular o encontro das pessoas, a aproximação, por diversos motivos. Cada canto com o seu, uns querendo falar das técnicas de filmagens, outros querendo questionar os motivos sociais do projeto, outros falando de distribuição e circulação e outros, ainda, em debates existencialistas, sobre o que é sentir-se livre. Assim como as bandas recebem a reação de diversos públicos, o Cinema pôde sentir seu público. A aproximação entre realizador e público mostrou-se primordial. Os cineclubes tem que crescer, devem ser estimulados e deve-se fomentar a criação de novos. A rede de circulação de filmes independentes é essa. Vamos utilizá-la. Nenhum retorno é mais positivo que sentir a reação de diferentes públicos diante de seu filme na tela.
Continuemos. O Cinema nacional precisa.
A alternativa é a resposta.
Dá pra fazer, dá pra circular, dá pra viver fazendo isso.
#TurneAbel
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Veja aqui o diário de bordo da turnê